Fico
imaginando o quanto é difícil ver o azul na natureza. Desde as mais singelas
plantinhas até as mais densas árvores da floresta. Vemos o azul em algumas
aves, borboletas, flores (a maioria destas no mais alto das montanhas), mas
muito raramente. Os que carregam consigo essa cor geralmente não são exclusivos
da Terra, vivem no alto. Outro dia, pintei meu cabelo de azul e isso causou
muita estranheza nas pessoas. “Azul? Como assim?”. Fui confundido com alguém
fazendo campanhas eleitorais, movimentos sociais... Ouvia elogios, sim, mas as
piadinhas eram mais constantes. Isso me fez pensar que o azul realmente não é
próprio da Terra, é de um lugar bem mais acima dela. Aqui, cabelos amarelos,
brancos, pretos, vermelhos, marrons e laranjas são bastante comuns, mas ninguém
nasce com cabelo azul (nem verde, nem roxo, nem rosa, eu sei). E se alguém
ousar andar por aí com as madeixas dessa cor, deve estar psicologicamente
preparado para os mais variados palpites. É engraçado como muitos acham que
ligamos para a opinião deles, não é? Ora, se já pintamos de azul, quer dizer
que não estamos nem um pouco interessados no que elas têm a dizer. Eu,
particularmente, não estava. Certa vez, eu estava saindo de uma loja e uma
criança gritou: “Olha, mãe, um menino de cabelo azul!” “Deixe ele, filho!” “Mas
é tão legal, eu quero tocar!”. “Ele não é normal, menino!”. Eu poderia ficar
chateado com esse comentário, mas fiquei lisonjeado e doido para chegar nessa
senhora e demonstrar minha “anormalidade”. A criança, por sua vez, tão pura,
tão bela e inocente, olhava para meus cabelos com olhar encantado, morrendo de
desejo de tocá-los, apreciava boquiaberta. Aproximei-me devagar, a criança
ansiosa e a mãe tensa. Agachei-me, e deixei o menino tocar nos meus fios. A
mãe, um pouco nervosa, deixou (Se não deixasse, o menino choraria até a última
gota). Senti seus dedos afagarem meus cabelos, e um sorriso resplandecente se
fez naquele rostinho puro de um ser livre de preconceitos. “Finalmente, mãe,
toquei o céu!”
